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( Chico Xavier - ditado por André Luiz )

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Um conto gostoso de ler


O Natal de uma familia diferente.

Por Ignácio de loyola Brandão



Como se tivessem combinado, chegaram juntos, cada um com um pacote na mão, envolto em papel festivo. Renata, minha filha, beijou Celso e Ricardo, eles entregaram os presentes. Ricardo apresentou os dois jovens que tinham entrado junto.
- São amigos de faculdade, um de minha turma, outro do Celso. Moram fora de São Paulo e queriam conhecer meus irmãos.
Os dois apertaram as mãos, entregaram uma garrafa de vinho cada um, desejaram feliz Natal.
- Ainda que faltem alguns dias, mas vamos lá.
- Faltam sim uns dias, mas o almoço foi programado para hoje por um motivo forte. Único dia em que os irmãos podiam se juntar. Cada um está num lado, foi preciso armar com antecedência. Primeiro Natal que passam juntos!
Expliquei com um sorriso, porque eu sabia o que eles não sabiam.
O almoço foi servido, uma carne tenra de peru com salada de endívias. Os colegas de faculdade estavam curtindo o encontro dos irmãos.
A certa altura, surpreenderam-se quando Celso perguntou à Renata:
- E seu pai? Vem?
- Não sei ainda!
Os dois olharam para a Renata, olharam para Juliana, voltaram-se para mim. Afinal, não era eu o pai? Percebi a perplexidade. Não era uma reunião de irmãos? Almoço vai, almoço vem, Renata virou-se para Celso:
- Perguntou do meu. E o seu pai?
- Sabe que ele nunca vem. Desentendeu de vez com minha mãe, mudou-se de São Paulo.
Os dois colegas de faculdade se entreolharam perplexos como que perguntando: que irmandade é esta? Que pais são esses? Não resistiram:
- É ou não é um almoço de Natal entre irmãos? Que conversa é essa do seu pai, do pai dela? Uma brincadeira, pegadinha, o quê?
- Nada disso, comentou Ricardo, o mais velho de todos. Este almoço é especial Um almoço de Natal, dias antes do Natal, e há muito esperado. Somos irmãos não irmãos. Nos consideramos irmãos e vivemos como irmãos.
- Continuamos sem entender.
Todos riram. Renata entrou na conversa:
- Minha mãe é esta, a Juliana. Casou-se com meu pai aos 24 anos, e nasci. Um ano depois, meu pai se mandou. Dois anos depois, minha mãe casou-se de novo com o Rodrigo, este aqui na ponta da mesa, com quem vivo há 24 anos.
Portanto ele é meu pai, o homem que me criou, educou.
Ricardo pegou a deixa:
- Rodrigo é meu pai. Era casado com a Cássia, minha mãe. Quatro anos depois de eu nascer, eles se separaram. Meu pai ficou anos sozinho, até se casar de novo com a Juliana. Nossos Natais sempre eram esquisitos.
A ceia com minha mãe, o almoço do dia seguinte com meu pai. Então, minha mãe, a Cássia, se casou de novo com o Edu. E nasceram Celso e João.
Celso está aqui, o João está no estrangeiro. Meus irmãos por parte de mãe. Depois, Cássia e Edu se separaram, ele ficou um tempo, casou-se de novo, tem um filho, Marcelo. Que ainda vai chegar porque este encontro foi planejado. Assim teremos pais não pais e irmãos não irmãos. Um Natal diferente, porque nos uniu e estamos curtindo.
Os colegas de faculdade compreenderam, ainda que ressabiados. Porém sentiram o bom astral e ficaram em dúvida. Quem são os diferentes aqui? Nós, ou eles? Quem são os normais? Perguntaram rindo. É, o mundo mudou, mas o Natal continua Natal, unindo pessoas. E foram abertos espumantes frescos e delicados.

Inácio de Loyola Brandão, 74 anos, é escritor e jornalista, tem 35 livros publicados entre romances, contos, biografias, crônicas, viagens e infantis.
Cronista quinzenal do jornal O Estado de S.Paulo

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